Escrevi este texto alguns anos atrás. Na época eu morava em outra casa, cursava outra faculdade e estava em dois estágios, mas o hábito de escrever tempestades em copos d’água já existia.
Posto especialmente para minha Galega, que gosta muito da história. Houve pequenas correções, mas tentei não alterar os traços principais, tanto da idéia quanto os que refletem o contexto em que eu estava.
Resumiria como “o que importa é a viagem, não o destino”, que John Grogan comenta em Marley & Eu, livro que minha princesa também gosta muito. =)
Ê, laia…
Tenho observado como é interessante o ato de preparar o quarto para a noite. Não, não “A Noite”, qualquer noite, noites comuns. Agrada-me toda a cerimônia.
Você chega em casa e vai soltando as coisas no quarto. Ele nunca recebe a devida atenção. Mochila, jaqueta, sapato, chaves. Larga-se em qualquer suporte que fique ao alcance dos braços sem que seja necessário qualquer modelo de genuflexão posterior.
Você não mexe na cama.
Abusa do banheiro.
Simplesmente ignora os sentimentos e razão de ser daquele incompreendido buraco na parede.
Sai para o restante da casa, mas, inevitavelmente, haverá uma volta. O retorno. O ato de entrar – ah, começou Full Circle. É, Aerosmith, sua mula inculta. A mensagem de “amanhã será melhor” dessa música é tão revigorante… – no quarto quando você sabe que precisa dormir e que o dia está acabando é totalmente diferente. Você entra com aquele ar de favorito, com o âmago da sua gratidão concentrada nele: seu quarto.
Claro, provavelmente também no banheiro. Arrumam-se os livros e revistas, empilha-se a roupa suja. Lixeiro está limpo, bacio também. Não, a pia nunca está limpa. Você a organiza. Lava o rosto, escova os dentes, os cabelos. Amarra o cabelo. Admira-se no espelho, decepciona-se com a fria realidade e vira as costas. Apaga a luz mas deixa a porta aberta, é necessária a ventilação que entra pelo basculante.
Confere que a veneziana da janela esteja trancada, mas não baixa o vidro. No máximo de uma só, porém não em novembro.
Arruma os calçados e olha para a escrivaninha. Céus, o pensamento “com tudo isso aqui, meu guarda-roupas está vazio?” é inevitável. Triagem. Limpo, sujo, limpo, “meu Deus”… As que sobraram na mesa são separadas entre informais e roupa para trabalho. Trabalho, quase ia me esquecendo. Sempre há o intervalo para as responsabilidades, quando você está arrumando alguma coisa. O assunto entra por uma periferia, mas acaba tomando a sua mente. Por exemplo, ao arrumar as roupas do trabalho você lembra-se daquela pendência que deixou hoje ao sair, que te faz recordar do relatório da disciplina mais impertinente da faculdade, e então a coisa toda chega a um nível de necessidade no seu cérebro que você tem que parar. Pega a mochila, onde estão seus itens de sobrevivência na cidade, a calculadora e uns papéis para rascunho e senta-se na cama. Claro, ninguém usa uma escrivaninha como uma escrivaninha deve ser usada. São outros seres incompreendidos, podemos falar sobre eles no futuro.
Abre a mochila – Savage Garden com Crash and Burn, ela passa um sentimento de companheirismo que me faz lembrar algumas pessoas, mas quando termina eu as esqueço. Tão romântico. – e tira ela, a incomparável: a agenda. Não, se você não tem o hábito de usar uma você não pode imaginar a necessidade que sente alguém que as usa. É indescritível. Abre a folha do calendário para se situar, pula para as páginas da semana atual. Revisa os dias anteriores para checar itens pendentes, as futuras para se planejar. Pára na atual. Rabisca algumas coisas, a concentração foge e você começa a desenhar uma caveirinha – ou uma ilha, ou um elefante. Qualquer coisa sem nexo – ela volta porque você se surpreende como o tempo passa rápido, e aquele relatório realmente é para depois de amanhã. Bem, depois de amanhã ainda está longe. Começa o levantamento orçamentário. Contas a pagar, a pagar, a receber, a pagar. Porque a pagar é sempre maior? Impropério. Arruma os papeizinhos, confere lembretes e notas fiscais que são guardadas na carteira – Nirvana com Polly. Sem análises para essa – e guarda tudo. Certifica-se de que todo o equipamento do dia seguinte está na mochila para não ter de pegar coisas antes de sair de casa. Embrulha tudo.
Escrivaninha, janelas, banheiro, roupas, mochila. Sim, a cama. Ó cama. Tira a coberta, sacode e a pendura na cadeira. Bate os travesseiros e os empilha sobre a coberta. Estica o lençol, pega o travesseiro de cima e bate na cama. Não que esteja suja, mas a sensação de “ventilação” no lençol é interessante. Joga os travesseiros nas suas posições e estica a coberta.
Percebe dois pontos críticos: a ventilação, tão sublime, não teve seu fator chave, o ventilador; e o som, essencial, foi ligado, mas o aparelho não teve CD ou rádio escolhida. Você sabia que havia algum ruído te importunando, e era aquela estação comercial tocando sons alienígenas. Abre o porta CDs. Passa por vários. Avalia seu estado de espírito. Será algo inteligente ou psicodélico – ou seja, de The Doors a Pink Floyd, passando por Oasis e Aerosmith. Põe na rádio de todas as noites, se a música ou o papo for bom pode abdicar ao CD. Claro, junto da música vem o incenso, você precisa de um incenso. Escolhe entre os dois sabores, sem muita especificação nesta parte. Depois liga o ventilador, sem apontar para a cama e de costas para o incenso, de forma que seu aroma seja espalhado pelo quarto.
Chegou o momento decisivo. Celular está carregando e pronto para despertar. Você apaga a luz principal e liga o abajur ou qualquer outra iluminação indireta. Veste uma roupa folgada, pega o livro. Começa a ler, mas não está agradável, talvez correr os olhos sobre alguma matéria da aula. Também não, quem sabe só ouvir rádio, sem ocupar muito a mente. Que droga, isso também é chato.
A constatação final: a barreira de todas as noites. Dormir assim, em casa, sem nada de especial, é extremamente tedioso, perigoso e difícil.
Sabe aquela sensação de que a “pré festa” é sempre melhor que a festa? Isso, quando você passa a semana programando, planejando e convidando para o sábado à noite, e ele acaba sendo um saco. Era sobre isso, afinal que eu queria falar. A que será que se deve esse sentimento tão cretino? Há quem diga, e eu particularmente concordo, que é uma relação de decepção. Você visualiza e monta tanto aquele evento que quando ele acontece – e raramente será conforme você esperava – a decepção sobrepõe-se a toda a alegria daquele instante. Ó decepção, tão fria, concreta e intransponível. Você não encontra uma saída para ela, no máximo um consolo, uma desculpa. Que acaba a tornando pior.
Buscando-se uma saída para isso, chega-se a um chavão de discursos morais. Tentarei introduzi-lo de maneira diferente. Seu corpo está – seguindo-se as regras da física – no hoje, certo? Então porque, cristão, sua mente está no semana que vem, ou no amanhã à noite? Não, não estou dizendo “seja inconseqüente”, mas sim “viva o momento junto com seu corpo, viva agora”. Claro, planejar gera grande parte do sucesso na vida, mas não se prenda a planos. Desta forma o tombo da decepção é menor.
As formas naturais são as mais certas.
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