Stuck in a moment
Publicado por mogli__ em 08 Mar 2007 | sob: geral
Houve sempre forte angústia em alguns integrantes da minha turma de amigos, digamos assim, de infância, por assim dizer. São aquelas amizades que você cria no fundo do coração, e que por mais que seu mundo vire do avesso e você conheça centenas de pessoas, nenhuma delas chegará à categoria desses amigos de antigamente.
Parece algo hierárquico, como colegas e amigos. Não sei explicar, mas é bem verdade.
Então, como ia dizendo, algumas pessoas dessa turma temiam o futuro. “Fulano vai se formar (no Ensino Médio) ano que vem, o que será que vai acontecer?”, ou “Ciclano está se mudando, não o veremos mais”, e essas coisas da vida.
Tudo isso criava um grande medo de como continuaria a turma, as amizades e os relacionamentos.
Inevitavelmente o tempo passou - ele tem esse hábito, não é? - e, da mesma forma inevitável, muitas coisas mudaram. Muito.
Vícios, cidades, hábitos, amizades.
Valores.
Com isso, comentários do tipo “antigamente não era assim” ou “alguns anos atrás estaríamos fazendo isso” acabam sendo espontâneos.
Triste, não é?
Segurem esta emoção toda, vejamos outros aspectos.
O levantado acima trata da natural evolução humana e social. As pessoas tendem a amadurecer com o passar dos anos, e, atrelado a isso, temos vários acontecimentos - familiares, profissionais, sociais - que interferem na vida do cidadão, e impulsionam mais ainda a tão temida mudança.
Temida.
Em ambientes corporativos, se você vislumbra a alteração de um determinado procedimento - ao invés de A aprovar, mandar para B copiar e depois para C catalogar, tirem B da história e deixem que A aprova e C faça o resto - costuma dar alergia nos colaboradores envolvidos.
Atualizar o método de marcação de ponto, então, origina ataques de raiva.
Há uma certa relação entre a tristeza pela transformação do colega, tratado nos parágrafos iniciais, com a aversão do funcionário descrito acima?
Muita.
Comodismo? De certa forma. Insegurança? Total.
O homem naturalmente é resistente a qualquer alteração do seu ambiente.
Talvez seja uma resistência infundada. Lavoisier havia previsto que tudo se transforma, previsão esta que, aplicada aos animais, veio a ser comprovada pelo colega Darwin.
Nascemos para isso. Somos programados para evoluir.
Certo. Se aceitarmos essa premissa natural, como tratar da depressão pelo colega que não é mais o mesmo, ou pelo maldito procedimento que antes era assim e agora é assado?
Bem, nas organizações as causas são, em grande parte, insegurança pela geração de instabilidade do vínculo. O cidadão acha que se A mudar para B ele terá menos responsabilidade e, consequentemente, será demitido.
Se este é o seu plano, chefe, então finja que você não está notando a crescente coceira do seu funcionário. Caso um eventual desligamento não esteja em vista, seja claro sobre as razões da mudança. De forma sincera.
Claro, com os vínculos afetivos a história é outra. Costumo sempre tentar convencer as pessoas de uma teoria que nem eu tenho muita convicção, mas ela faz sentido.
A transformação das pessoas e comportamentos é inevitável. Aceite isso.
Antigamente era melhor do que agora? Certo. Defina com clareza quais pontos eram melhores: se eram as conversas, discussões, entretenimentos, cumplicidade. Enfim, você será capaz de uma pequena lista das características que você preferia no molde antigo.
Agora, a parte difícil: busque a essência. O quê, exatamente, fazia com que esses itens da lista existissem e fossem tão importantes? A essência é imutável, basta procurar com atenção.
Quando você encontrá-la, perceberá que aquela angústia está bem menor. Agora é só aplicar essa essência nos dias de hoje.
Por mais que uma pessoa mude, o caráter mantem-se o mesmo. A índole é única.
Esta índole nunca negará uma essência dela.
Com isso você conseguirá aquelas mesmas amizades de antigamente, mas com um arzinho moderno.
Pelo menos é algo em que acreditar.
Navegar é preciso, viver não é preciso.
Fernando Pessoa disse que navegar era criar.
Eu digo que é evoluir.
E você?
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