Quinta, 25 de Outubro de 2007

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Doenças urbanas: solidão

Publicado por mogli__ em 25 Out 2007 | sob: geral

Francisco atravessou a estrada de chão que dividia a propriedade do vizinho com sua vara de pescar apoiada no ombro.
Parou para uma prosa com Jonas, na sua rotineira visita na região para vender pães.
Soube que Helena, aquela beleza de garota que mora perto da igreja, estava de aniversário e seu pai iria matar um boi para comemorar.
Despediu-se do colega e pulou a cerca que seguia a via, para tomar o caminho do rio.
Espremeu os olhos contra o sol antes de cumprimentar o Nilson, que tratava dos cavalos no pasto.

Andressa movimentava-se com dificuldade no ônibus apertado. Tinha pressa, já passara do seu ponto de descida porque ninguém havia solicitado uma parada, e puxar a corda sem estar em frente à disputada porta era inútil.
Desceu na frente do supermercado do bairro e aproveitou para comprar alguma coisa. Fila para lanche, fila para pão, fila no caixa. Levemente entediada, encaixou os fones de ouvido e ligou o som. Bateu o pé no ritmo da música que só ela ouvia, agradecendo por abafar o bip do caixa.
Isso o atendente conhecia bem. Bip, bip, bip. Débito ou crédito? Próximo. Duas horas mais tarde ele teria seu intervalo de trinta minutos, 10 deles empenhados na fila da lanchonete.

Francisco provavelmente acabou largando a pescaria para dar um mergulho. Na volta, passaria no centro para saber das festividades de logo mais.
Andressa deve ter largado as bolsas todas na mesa, respondido alguns e-mails e terminado a noite trocando de canais.

É evidente que os cenários foram montador para ressaltar o contraste, contudo é certo que nenhum deles mostra momentos imaginários ou excêntricos.
O segundo trecho provavelmente faz parte do cotidiano de muitos. Há uma patologia das massas que agrupa vários comportamentos típicos dos moradores de centros metropolitanos. Infelizmente, a maioria desses comportamentos não é natural.

As sociedades surgiram por necessidade e instinto. O homem vive em grupo e, desde que as primeiras noções de vida social foram evoluindo, diversas pequenas seleções, dentro do universo de uma determinada população, eram criadas.
Os freqüentadores de uma paróquia, caçadores de uma região, sócios de um negócio, fraternidades, cooperativas, família. Em vários graus de abrangência, o homem sempre contou com conceitos coletivos para se sentir acompanhado.
Para sentir-se parte de algo.

Francisco é parte de uma comunidade pequena e simples. Quase todos se conhecem, compartilham os eventos mais importantes e possuem grande dependência entre si.
Andressa vive em um arquipélago. As urgências da máquina capitalista, indiferença com as pessoas, insegurança e inversão de valores leva os cidadãos das grandes cidades a um marasmo social que cria, em cada um dos seus anônimos elementos, brecha para uma incômoda e complicada solidão.

Há quem tenha direito de dizer que está sozinho, sem que necessariamente seja um alienado social, é claro. Mas ouso defender que a maioria das cabeças solitárias desses mares de concreto ainda não parou para tentar entender a origem desta angústia toda.

Remédio? O oposto, é claro. Talvez as pessoas sejam boas e simpáticas, basta que tenham uma chance de mostrarem isso. Tome a iniciativa.
Conheça seus vizinhos. Vá ao cinema, jogue carta, dê jantares. Descubra o nome do seu porteiro e de todos os funcionários da empresa onde trabalha.
Monte seus ambientes. Crie um universo, para poder fazer parte dele. Construa seu grupo, isso é natural.

Outras doenças urbanas? Provavelmente Francisco não sofrerá de estresse bucólico, estafa campestre, síndrome de mato…

Este foi meu primeiro post com tema sugerido. “Fale sobre solidão”, disse o Mano. Isso é estranho, porque tenho medo de acabar decepcionando quem indica o tema, visto que nossas interpretações sobre o assunto podem não ser iguais. Mano, conto com sua compreensão :P